Blog temático, e temporário, para desenvolvimento do tema Religião & Apoio Social. Blog gerido pela área de Ciência das Religiões da Un. Lusófona, com a colaboração de Helia Bracons Carneiro (da área de Serviço Social da ULHT)

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Terça-feira, 21 de Setembro de 2010

A Religião como factor integrador das comunidades Imigrantes: os Hindus da Quinta da Vitória

 

A minha contribuição e reflexão para este tema tem como base o trabalho desenvolvido, onde tive a oportunidade de trabalhar como assistente social e investigadora num bairro multicultural (Quinta da Vitória) onde se cruzavam famílias oriundas de diferentes culturas e religiões, particularmente a hindu, onde a religião desempenha um papel fundamental.   

 

Vivemos num tempo de grandes transformações, caracterizado por um lado, pela velocidade a que a tudo se acede e, por outro, uma sociedade onde o diferente, o Outro, se torna cada vez mais presente e se assume numa sociedade multicultural.

Não é possível compreender a riqueza das culturas sem o seu conhecimento, o que implica o conhecimento das suas religiões e da sua história. O desconhecimento do fenómeno religioso de um grupo étnico, pode originar um empobrecimento significativo no trabalho com pessoas oriundas desse grupo específico e pode levar a atitudes de intolerância e de indiferença.

No caso concreto da comunidade hindu do bairro da Quinta da Vitória, pude constatar que a religião constitui um factor de integração destas famílias, essencial ao seu processo de adaptação no país de destino, uma vez que são nos templos que as famílias hindus estabelecem redes fundamentais para a resolução de problemas e para a satisfação de algumas necessidades. Na verdade, é nos templos que encontram apoio social, bem como a dinamização de um conjunto de actividades e serviços.

 

Relativamente às famílias de religião hindu estas revelam um sentimento e uma atitude religiosa na sua vida quotidiana. Estas famílias respeitam muito os rituais e eventos religiosos, sendo a religião o centro e o caminho das suas vidas, daí verifica-se a importância e a fidelidade diária a que se submetem as práticas religiosas.

 

A questão religiosa é o traço unificador da identidade cultural dos hindus. O factor religioso manifesta-se de uma forma recorrente na vida quotidiana desta comunidade, tanto pela forma como cada família organiza os seus cultos religiosos diários, como pela distribuição do seu calendário-lunar.

O calendário hindu é rico em festividades, cada uma delas destinada a celebrar um deus ou um momento da vida de um deus. Estas celebrações proporcionam a reunião de todos os hindus, que em conjunto festejam, dançam, cantam e oram em honra de deus.

A religião é o eixo de união e também de orientação dos hindus, que actuam e vivem de acordo com os princípios e ensinamentos básicos do hinduísmo. É o que os une e, ao mesmo tempo, os distingue das outras pessoas.

Todas as casas hindus possuem um mandir, sob a forma de um altar doméstico, onde se encontram colocadas figuras, imagens, estátuas de deuses e fotografias de filhos ou antepassados que já faleceram. Para além destas figuras, existe um prato onde é colocada comida e doces feitos diariamente e que é primeiro oferecida aos deuses, antes de ser consumida pelos membros da família.

Este lugar é cuidado diariamente e alvo de oração diária por parte de todos os residentes da casa.

O local mais referenciado pela população hindu, é o mandir (templo) pois exerce uma função agregadora da identidade cultural e religiosa. Os templos encontram-se destinados a cerimónias mais solenes ou a festividades, pertencendo ao sacerdote a tarefa de cuidar do templo, de realizar cerimonias e orientar nas orações e na interpretação dos textos sagrados.

E é no próprio bairro onde residem, que as relações de vizinhança e de amizade, a par da família, figuram como a mais importante rede de sociabilidade. A existência de familiares, amigos e vizinhos que dão um apoio efectivo e que proporcionam um suporte social sólido, contribui para a criação de sentimentos de segurança, pertença e preservação da sua identidade. São estas redes de proximidade, particularmente as de carácter informal, que permitem aos hindus lidar com os problemas que surgem no dia a dia, relacionados com o trabalho, habitação, identidade cultural, possibilitando uma maior adaptação ao país de acolhimento.

Relativamente às famílias, as relações de vizinhança estão muito ligadas às relações familiares e à existência de festividades, onde nestas cerimónias se tornam ponto de encontro entre as mesmas. Aquilo que sobressai e que confirma como mais evidente, quanto à relação de vizinhança, é que as vizinhas mais visitadas e com quem se mantêm relações de amizade, são as que fazem parte das suas “famílias alargadas”.

A família é tida como o núcleo agregador, onde se vai buscar a força, os conselhos, as opiniões e apoio, quer espiritual, quer social. Os laços familiares são muito fortes, próximos e respeitados.

A existência de associações culturais e religiosas, para além de facilitarem a integração dos migrantes na sociedade de acolhimento, promovem a interacção e disponibilizam serviços de apoio e entreajuda às famílias, nas várias áreas.

 

As famílias hindus possuem as suas próprias redes sociais de solidariedade, constituindo comunidades com crenças, estilos de vida próprios, rituais, valores que os caracterizam e que formam a sua identidade cultural, religiosa e social.

 

Reflectir sobre o fenómeno religioso bem como as suas implicações na sociedade, compreender a religião como expressão da cultura e da identidade individual e colectiva e a forma como esta se reflecte numa cultura, surge como uma urgência no quotidiano dos profissionais de Serviço Social, mas também diz respeito a todos, enquanto cidadãos, que estão em contacto com o Outro.

             

Hélia Bracons

Docente de Serviço Social na Universidade Lusófona, Lisboa

publicado por Re-ligare às 11:02
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Domingo, 5 de Setembro de 2010

Valores sociais e religião: a emergência de uma nova solução democrática

 

A Constituição francesa de 1791 excluía os trabalhadores e, em geral, as pessoas dependentes da titularidade do direito de voto, com fundamento em que a pobreza e a dependência impediam que se tivesse uma vontade livre, entendida como indispensável para a constituição da vontade coletiva. Passou então a ser um objetivo da democracia a eliminação da pobreza e, em geral, da dependência material, através da promoção pelo Estado da igualdade económica e social, quer através da instituição de uma “democracia industrial”, quer através de regulação pública, de políticas de bem-estar e de uma “democracia económica” (David Held, Political Theory Today, 1991: 160).

A democracia começou, paulatinamente, a ser entendida como uma democracia económica e social, substituindo-se o Estado à solidariedade dos privados, que poderia ter apenas, na melhor (ou pior, consoante a perspetiva) das hipóteses, uma natureza supletiva. Este processo levou muitas dezenas de anos a constituir-se e atingiu o seu apogeu na segunda metade do sec. XX, na Europa, com a criação do chamado Estado providência (welfare state). Este processo teve consagração constitucional, na maior parte dos Estados.

Os revolucionários franceses não eram amigos da religião, mas o mesmo já não acontecia com todos os que, na Europa, ajudaram a criar o chamado Estado providência. Aliás uma outra expressão para esta realidade é Estado social, cuja formulação deriva da doutrina social da Igreja Católica e que teve, e continua a ter, muitos católicos entre os seus paladinos.

O primeiro passo no processo histórico de construção da democracia moderna foi o reconhecimento dos direitos de cidadania política. A democracia económica e social foi o segundo passo no referido processo, e constituiu, também, uma subjetivação dos avanços dados inicialmente, através do reconhecimento dos direitos, agora reforçados, de cidadania a um número crescente de indivíduos. Com o segundo passo pretendeu-se melhorar os resultados dos processos políticos através do aumento das qualidades racionais dos membros da sociedade (Held, cit.). Foi o caso da aposta na educação universal e gratuita. E foi também a aposta num sistema público e universal de segurança social, bem como em políticas sociais ativas. O que começou por ser um meio de promoção das qualidades individuais transformou-se, com o tempo, num fim do Estado visando a qualificação dos indivíduos para uma cidadania responsável.

As confissões religiosas são, como sabemos, objeto de regulação constitucional e legal. As situações variam de país para país, mas basicamente incorporam, tanto nos países de matriz romanística como nos países de matriz anglo-saxónica, o direito de liberdade religiosa (incluindo a separação entre o Estado e as Igrejas) e o direito de as confissões religiosas definirem, nos termos da lei, os seus próprios fins.

Em Portugal, o papel de ação social das Igrejas, em particular da Igreja Católica, é reconhecido pelo poder político, e é, além do mais, visível por todos, através, sobretudo, do trabalho realizado pelas instituições privadas de solidariedade social e pelas misericórdias, que foram inventadas em Portugal e que, em alguns casos, foram replicadas em outros países, sobretudo nos países de língua portuguesa.

É de notar que, nos últimos anos, se registaram tensões em Portugal entre o Estado e a Igreja Católica, por causa da aprovação de leis várias em matéria de costumes, mas, ao mesmo tempo, verificou-se entendimento em matéria social (sem prejuízo de críticas pontuais por parte da Igreja), reconhecendo os governos o importante papel das instituições ligadas à Igreja Católica no combate à pobreza e no apoio em geral aos necessitados. O mesmo se diga de outras instituições ligadas a outras confissões religiosas, embora com menos peso.

Nos tempos atuais de crise, existe uma redução das despesas sociais por parte do Estado e, simultaneamente, um aumento da procura de apoio das instituições de solidariedade social não estatais, nomeadamente das instituições de inspiração religiosa. Estas são hoje imprescindíveis à coesão social do país, o que nos permite antecipar o futuro: a retração do Estado será compensada pelo aumento da intervenção das instituições da sociedade.

Mais do que discutir o Estado social, é necessário discutir o Estado e, particularmente, as funções de soberania, que são o que justifica o Estado (etimologicamente, Estado é “o que está”), embora não se esgotem na intervenção do Estado. As funções de soberania no início do séc. XXI são três, ainda à espera de correta definição e concretização: segurança, justiça e educação. Não vou desenvolver este tema, realçando apenas que os factos mostram a emergência de uma nova solução democrática. É já um facto irreversível que o Estado do séc. XXI terá funções diferentes do Estado da segunda metade do séc. XX. Está a construir-se um novo Estado, bem como uma nova relação deste com a sociedade.

Um dos traços mais marcantes desta evolução passa pela valorização do voluntariado, como expressão do reconhecimento dos outros e de uma dádiva de si mesmo aos outros. O Estado vai ter de reconhecer mais direitos a quem exerce voluntariado, porque o voluntariado não é ir para fora, com bons salários e vantagens fiscais, ou ficar cá dentro, a fazer caridadezinha, mas uma ação consciente e deliberada ao serviço de quem mais precisa. Faz voluntariado aquele que abandona o serviço a si próprio para servir o outro – institucionalizando pela prática o amor a todo o outro, incluindo si próprio. Esta realidade altera, pela sua exigência, a prática política, apesar de (ainda) estar fora dos cânones científicos.

O Estado que existe é velho mas tem a superioridade que decorre do distanciamento das coisas, que lhe proporciona uma possibilidade extraordinária de identificação com a verdade da sua existência, numa espécie de última definição. Já o espírito religioso gosta de jogar as últimas partidas e, por sabê-las últimas, joga-as bem. Esta é a “cartada” do voluntariado de inspiração religiosa no mundo atual, que é suficientemente forte para poder alterar o modelo de organização social existente.

As sociedades atuais são crescentemente desigualitárias e há uma nova pobreza ligada à falta de trabalho. Mas o Estado, ao invés de destruir a dependência das pessoas, criou dependência. Que fazer? É ir adiante.

Na Encíclica Caridade na Verdade, Bento XVI, recordando a Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo (a “Gaudium et Spes”), recorda que “o homem é o protagonista, o centro e o fim de toda a vida económico-social”. Ora se é protagonista, não pode ser dependente. O sistema político vai provavelmente mudar, de modo a que exista um novo mundo em que haja uma existência informada do que está a acontecer, não só na vida de cada um mas em relação aos demais. Será um novo mundo onde todas as pessoas serão educadas, no sentido de que se elevam a um novo patamar de afirmação diante dos outros. Este é o antídoto (religioso) do relativismo, que há todo o interesse em que seja adotado: o “herói das 1000 faces”, de Joseph Campbell (que miticamente personifica a humanidade), é, nas suas diferenças de fisionomia e perspetiva, a mesma pessoa, em direção à maturidade. É, volto a insistir, aquele que abandona o serviço a si próprio para servir o outro, institucionalizando pela prática o amor a todo o outro, incluindo si próprio.

 

 

João Relvão Caetano

Universidade Aberta

 

publicado por Re-ligare às 14:15
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Terça-feira, 10 de Agosto de 2010

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«Religião e Apoio Social» é uma junção que me remete em primeira mão para uma conotação histórica da história do Serviço Social e da Assistência que, em Portugal, nem sempre serviram fins edificantes.
Perdoem-me a franqueza mas, expressões como «a religião é o ópio do povo» ainda me vêm à cabeça sobretudo e, no nosso caso, na vertente da prática ritualizada da igreja católica que em troco de «ajuda» ás classes e ás situações mais vulneráveis ensinava a submissão e a resignação como virtudes maiores, a par com o enaltecimento da pobreza (a dos outros, será bom de entender).
Fui educada na crença no Estado Providência, na Política Social e nos Direitos do Homem e, talvez por isso, tendo a achar que a acção das Igrejas embora importante, deve ser suplectiva da Acção Social do Estado.
No entanto, como cidadâ e como profissional, não me posso alhear de todas as mudanças estruturais e conjunturais que têm vindo a acontecer, nem da velocidade a que acontecem e que nos deixam no tal terreno pós-moderno que de tão cheio de teorias sobre todos os assuntos, não nos deixa referenciais de escolha. Correndo os riscos de uma metáfora infeliz, posso achar uma analogia com as dezenas de marcas diferentes de um mesmo produto (iogurte, por exemplo, que faz bem à saúde) que povoam as prateleiras de supermercado e nos dificultam a escolha informada ou então a tornam perfeitamente aleatória.
E surgem-me outras conotações para «Religião e Apoio Social». De entre várias, selecciono duas que na minha prática profissional como Assistente Social e na minha experiência de vida foram relevantes:
- a conotação do excelente trabalho que se desenvolve em alguns centros paroquiais (por desconhecimento, não falo das iniciativas sociais de outras igrejas de outras religiões). E não só o trabalho profissional, remunerado, mas também a acção voluntária de solidariedade com os outros, de humanização do tecido social e dos territórios onde estão implantados, a dedicação a causas e movimentos sociais, o «ajudar», ficando junto sem superioridades nem subserviências, entre tantos outros aspectos;
- a conotação da espiritualidade que, nos dias de hoje, me parece de grande relevância.
Numa sociedade que «vende» uma imagem das pessoas eternamente jovens, alegres, em busca fácil da felicidade e do prazer, todos os problemas, naturais ou acidentais que as pessoas (e as famílias, e os grupos, e as organizações e os territórios, ...) enfrentem no seu ciclo de vida parecem destoar.
Mas as pessoas continuam a ficar desempregadas, a morrer, a adoecer, a sofrer desgostos vários, a não conseguir pagar a casa, a não conseguir levar uma vida condigna ... e isso (apesar de encher as páginas da imprensa escrita e os tempos de telejornal) parece sempre que são problemas dos outros - dos que nasceram pobres, dos que não conseguiram deixar de ser pobres, dos menos aptos, dos preguiçosos, dos criminosos e deliquentes, dos «pretos», dos emigrantes em geral, dos que não têm educação nem ferramentas para se apresentarem competitivos.
A espiritualidade no meio disto não faz milagres. Mas ajuda-nos a situar na passagem que fazemos pela terra, na necessidade de nos tornarmos melhores (para nós e para os outros), na necessidade absoluta de protegermos o nosso meio ambiente (social, também e, em última análise, o planeta que habitamos), na necessidade de apostarmos na educação e na cultura como vias (é verdade, ainda acredito nisso) para uma autonomia de vida e uma consciência de si, dos outros e do mundo.
Não sou uma pessoa religiosa, no sentido tradicional do termo. Mas não sou isenta de fé e de sentido religioso, numa perspectiva mais ecumémica, se quisermos.
Acredito na Ciência mas tenho a noção que a Ciência não me explica tudo. E que nós precisamos (ou melhor, eu preciso) de ter alguns dogmas e alguma fé. Que a minha fé tenha ingredientes específicos, provavelmente também terá.
Por tudo isto e por mais que não caberá dizer «Religião e Apoio Social» sim, até porque provavelmente todas as religiões ensinam os valores e as práticas da partilha e da solidariedadedesde em todos os tempos e também nos de crise.
Mas que sejamos capazes de não voltar a ter «pobrezinhos por conta» para salvar a alma.
 
Isabel Passarinho
Assistente Social e Terapeuta Familiar

publicado por Re-ligare às 13:11
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Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010

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Não há duvida que as diferentes igrejas cristãs, e todas as religiões em geral, devem preocupar-se por ajudar a sociedade nas suas necessidades sociais. E por aquilo que conheço, muitas já o estão a fazer há muitos anos. Concretamente, no caso de Portugal se não fossem as Igrejas e algumas outras associações, a situação social estaria muito pior e, até, penso que seria mesmo catastrófica.

Por outro lado, considero que uma grande parte dos políticos do nosso país são imorais no sentido que deveriam diminuir os gastos públicos e não terem tantos assessores e secretários, e empregar mais desse dinheiro para combater a pobreza. Por outro lado, ainda, surpreendi-me porque, apesar da crise, os bancos têm sempre grandes lucros. Ou seja só as classes pobre e média é que pagam a crise neste país, e o Estado vive na sombra das IPSS e associações que lhes vão fazendo o trabalho enquanto uns quantos tecnocratas estão sentados nas secretárias e o problema continua na rua.

E ainda há outro problema mais grave: temos um Estado que exige muito mas paga tarde e a más horas, e muitas instituições necessitam dessa ajuda.
           

Paulo Branco
Assessor da Direcção da área de Ciência das Religiões (ULHT)

Director do Monte Esperança - Inst. Bíblico

publicado por Re-ligare às 11:09
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Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

Partindo do Tratado de Lisboa

A Constituição Europeia excluiu o nome “Deus” do seu Prólogo, gerando na altura combates “cegos” no seio de todos os países europeus, especialmente por parte dos círculos religiosos.
O que muitos desconhecem, é que o veto a essa Constituição nos libertou de um casamento de séculos que estava obsoleto e sem futuro, oferecendo-nos no Tratado de Lisboa algo a que muitos estão alheios e que é, e será cada vez mais, fundamental: “o diálogo aberto, transparente e regular com a religião, as igrejas e as comunidades religiosas”.
O que a Europa conseguiu foi um avanço civilizacional enorme, colocando-se as Religiões ao serviço de todos, promovendo o diálogo, tornando as Religiões parceiros cívicos.
Orgulha-nos ver Portugal, Lisboa e o português Durão Barroso, que criou o encontro inter religioso em 2005, a cabeça de iniciativas que poderão, se forem seguidas, dar um enorme contributo à escala global. Sabemos que os problemas actuais já não são à escala nacional ou regional, pedindo por parte de quem ter o poder de influenciar, uma resposta global. Daí, percebermos que o mundo político está efectivamente consciente do papel das Religiões. Esta resposta aos desafios actuais pode ser dada em conjunto, com parceiros credíveis e que tenham a força de mobilizar as massas.
Lamentavelmente, sendo Portugal o grande impulsionador desta iniciativa, não se fez representar neste último encontro e não se deu nos media o devido eco. Este foi, já, o sexto encontro do género.
Parece-me claro que, embora sendo ramos distintos da actividade em sociedade (religião e política), acabam por ter em comum o combate à exclusão e fazem da iniciativa social uma de suas bandeiras.
A Europa parece ter acordado, está mais consciente de que tamanha tarefa, ainda mais nos dias que correm, não se compadece de ser apenas travada pelos governos europeus. Com reconhecida humildade, pedem às instituições religiosas, de créditos firmados com tradições históricas, que se uniam nesse colossal empreendimento. Acredito que juntos, trabalhando de forma organizada e articulada, os resultados serão bem mais expressivos.
O apoio dado ao plano Estratégia 2020 reflete esse mesmo esforço, sobretudo se tivermos em linha de conta a representatividade das comunidades religiosas presentes.
Podemos deduzir que a solidariedade social, pode ser o começo de outros projectos conjuntos, que poderão, a longo prazo, dirimir o fosso cultural e religioso, limitado pelo desconhecimento ao nosso próximo, que no mundo global, deveria estar mais próximo ainda.
O contributo da cooperação das duas partes vai possibilitar, a longo e médio prazo, uma coesão, não só social, mas a outros patamares.
O artigo 17º do Tratado coloca na mesma mesa, não só os políticos e os religiosos, mas religiosos de diversos quadrantes juntos buscando soluções.
Acredito que o que se pretende com estes encontros, é a criação de linhas francas de diálogo. É necessária uma abertura ao mundo, que as partes se conheçam melhor, que se trabalhe, em conjunto, para TODA a sociedade.

Esperamos nós a confiança e a esperança dos milhões de europeus.
 
Rogério Freitas

aluno da Lic. em Ciência das Religiões

Ptor. das Assembleias de Deus (Alverca)

publicado por Re-ligare às 19:29
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Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

POR UM TESTEMUNHO SOCIAL DA IGREJA

Entende-se que o Testemunho Social da Igreja implica em sérias conseqüências, pois em todo o Novo Testamento significa que a Igreja é chamada para ser testemunha,[1] isto é, para ser “perseguida”, “rejeitada”, “humilhada”, para percorrer “caminhos difíceis”, “caminhos de morte”, estando sujeita a “lutas constantes” a “pagar o preço” por ser anunciadora do reinado de Deus.
Este testemunho visa proporcionar libertação às massas vitimadas pelo atual sistema-mundo vigente desumano. Opta-se fazer uso do termo “vítima”, ao invés de pobre, pois percebe-se, partindo de Dussel [2] teólogo contemporâneo, que a denominação “vítima” traz uma noção mais ampla e exata do termo pobre.  A “vítima” é o outro, como ser humano que vive na profunda dominação ou exclusão, encontrando-se submerso na “dor”, “infelicidade”, “pobreza”, “fome”, “analfabetismo”, “dominação” [3]. É verdadeiramente o “esquecido”.
Este Testemunho Social da Igreja possibilita apresentar uma igreja mais engajada, participativa e compromissada com uma fé política, lutando por uma nova maneira de se pensar a caminhada cristã, frente à sociedade atual.
Crer-se que a fé da Igreja implica numa inserção do cristão na atual realidade brasileira uma vez que por muito tempo, a Igreja têm-se mostrado inoperante ou apática em relação à obra social, entendendo só a evangelização verbal ou o discurso angelical como sua razão de ser.
 É por isso que o Testemunho Social da Igreja não deve agir de maneira generosa e produtora de alívio à pobreza das vítimas. É preciso sim, exigência de construção de uma ordem social diferente do atual modelo. Implica em uma opção por uma classe social contra outra, é tomar o partido dos despossuídos, bem como ser solidário com os interesses e lutas das vítimas. [4]
A atual conjuntura cristã conduz o cristão a formular as seguintes perguntas: De que adianta uma ação social sem questionamentos à ordem social vigente? E ainda, por que não colocar em prática um novo modelo de ação social? Teria a Igreja medo de pensar, e reformular seus velhos modelos?
É possível transliterando as palavras de Bogo: [5] “crer que uma [igreja] que perde a noção de tempo e deixa de acompanhar os passos que a evolução da história proporciona, ocupará espaços na sociedade, mas estes serão insignificantes para proporcionar avanços na realização de seus objetivos”.
Acredita-se que Testemunho Social da Igreja deve ser acompanhado de uma fé inteligente, pois a fé o ajuda a situar-se bem dentro da realidade conflitiva, vale dizer, ao lado das vítimas e dentro do lugar do povo marginalizado. A fé produz uma forte sensibilidade pelos problemas da exploração do povo, pois os interpreta como manifestações de pecado e injustiça contra a vontade de Deus. [6]
 Trata-se de uma fé engajada, vivida no meio do povo, e não aliviadora do sofrimento humano. Fazendo uso das palavras do teólogo Leonardo Boff [7]; entende-se que o modelo de ação social da Igreja permanece no moralismo, na utopia e no modesto idealismo tão freqüentes na história da Igreja.
Aqui torna-se decisiva a opção fundamental da Igreja a respeito do sentido da dinâmica social: ou a igreja opta pela ordem estabelecida, organizada pela classe dominante com seus interesses capitalistas, ou opta pelos grupos marginalizados, melhor dito, pela classe explorada, assumindo seus anseios de libertação e suas aspirações por uma sociedade diferente.[8]
Compreende-se que este Testemunho Social da Igreja ressurge no próprio povo brasileiro, uma igreja feita realmente povo, dentro do contexto de toda sua variada gama de criatividades e complexidades.
Uma igreja que desenvolva sua tarefa pública no Brasil é uma igreja com empenho social, isto é, engajada nos diversos problemas cotidianos, que está em constante realidade conflitiva.
Não implica em abandonar a prática da oração e celebração do Cristo Salvador; pelo contrário, a experiência com o sagrado conduz e motiva a igreja à prática da justiça e ao estabelecimento do reinado de Deus entre os povos.
Com base em Comblim[9], acredita-se que o desafio proposto estar em “sub-verter” a acomodação. Isto implica em remover dos arraiais eclesiásticos toda concentração de poder; todas as idéias do eu, e, mais ainda, todo e qualquer tipo de triunfalismo cristão.
O Testemunho Social da Igreja aqui proposto, busca a construção de uma sociedade mais justa. Não trata-se de colocar remendos nas camadas sociais através de doações e gestos de piedade cristã, mas vira pelo avesso a atual situação excludente e homicida que dizima a vida.
O Testemunho Social da Igreja implica em crítica, em voz de denúncia contra toda situação que contradiz ao plano de Deus e a mensagem evangélica. Junto com a criticidade frente ao sistema imperante, caminha o anúncio de real fraternidade e de partilha a ser praticado pela Igreja.
Entende-se que um comportamento cristão que não radicaliza-se e compromete-se na história do povo brasileiro, que não participa de seus esforços de emancipação e nem vive uma fé, na qual abre horizontes infinitos para a obra humana na história, seja considerado antibíblico.
Assim, crer-se que o Testemunho Social da Igreja levará a Igreja a engajar-se e a tornar-se mais comprometida com as diversas causas que degradam a dignidade humana, a fim de situar-se na realidade, em meio às massas vitimadas do nosso Brasil, e preocupando-se com os vários aspectos da vida humana e do planeta.

                       
Adriano Trajano
Pastor da Igreja Batista em Chã Preta/AL

Aluno da Pós-Graduação (com acesso ao Mestrado) em Ciências das Religiuões

              


[1] BÍBLIA, Português. Bíblia de Jerusalém. (At. 1.8; 14: 3. Ap. 17: 6).
[2] DUSSEL, Enrique. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. 2. ed. Petrópolis: vozes, 2002. p.17.
[3]  Idem.,Ibid; p. 314.
[4]  Idem., Ibid;  p. 70.
[5] BOGO, Ademar. Lições da luta pela terra. Salvador: Memorial das Letras, 1999.p. 25.
[6] BOFF, Leonardo. A fé na periferia do mundo. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1997.p. 11.
[7]  Idem.,Ibid;  p. 58-59.
[8]  Ibid; p. 67.
[9] COMBLIM, José. O tempo da ação: ensaios sobre o espírito e a história. p. 125.

publicado por Re-ligare às 16:28
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Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

Religiões e Apoio Social

 

Acaba de surgir a notícia sobre a declaração de Durão Barroso a respeito do papel das religiões na actual situação económica e social da Europa.

 

Estaremos suficientemente libertos de preconceitos para, efectivamente, dar um lugar laicizado às religiões nas funções de apoio social? Poderemos não usar, de forma assumida, essa força imensa que é a capacidade, quer em termos humanos quer de meios, das religiões?

 

Peço para que vejam no nosso blog: http://religiao-apoio-social.blogs.sapo.pt/, a notícia sobre essas declarações, e abramos um espaço de debate sobre o tema.

 

Obrigado a todos,

Paulo Mendes Pinto

publicado por Re-ligare às 19:08
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Durão Barroso: Religiões e Apoio Social

Notícia retirada do Público on.line de hoje:

 

O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, escusou-se hoje a assumir uma posição sobre a proibição de símbolos religiosos, considerando que essa é uma questão da exclusiva competência dos Estados-membros da União Europeia e não das instituições comunitárias.

 

Durão Barroso foi questionado sobre o crescente combate a símbolos religiosos na Europa, como a proibição do uso em público do véu integral islâmico ou da exibição de crucifixos em escolas já em vigor em alguns países, no final da sexta edição do encontro inter-religioso, que juntou na sede da Comissão Europeia representantes de diversas confissões e de vários Estados-membros.

O presidente da Comissão, que lançou a iniciativa destes encontros inter-religiosos em 2005, explicou que não ia tomar qualquer posição sobre o assunto, já que essa é uma questão de “competência nacional”.

“Sabemos que há respostas diferentes em diferentes Estados-membros, mas trata-se de uma competência nacional e não cabe à União Europeia e às instituições europeias ditarem qual a resposta a dar” à questão, afirmou.

Também o presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy, questionado sobre o mesmo assunto, e confrontado com o facto de o seu país, a Bélgica, ter sido o primeiro da UE a proibir o uso da “burqa”, escusou-se a tomar posição, e, respondendo a seguir a Durão Barroso, proferiu apenas três palavras: “a mesma resposta”.

A convite da Comissão Europeia, Conselho e Parlamento Europeu, representantes de Igrejas cristãs (Católica, Ortodoxa, Protestante e Anglicana), bem como do judaísmo e do islão e das comunidades sikh e hindu, oriundos de 14 Estados-membros (Portugal não incluído), discutiram a importância do combate à pobreza e exclusão social na perspectiva da governação europeia.

A este propósito, o presidente da Comissão Europeia, sublinhou o papel fundamental das igrejas e comunidades religiosas no combate à pobreza e exclusão social, "que não devem ter lugar na Europa do século XXI".

“As igrejas e as comunidades religiosas são importantes prestadores de serviços sociais nos Estados-membros da União Europeia. Se quisermos combater eficazmente a pobreza, é essencial basearmo-nos na sua longa e vasta experiência”, disse o presidente do executivo comunitário.

“Na Europa, vários milhões de cidadãos vivem no limiar da exclusão social, uma situação lamentável para uma das regiões mais ricas do mundo. À medida que a Europa recupera da actual crise, quero que o crescimento gerado permita integrar os mais vulneráveis na sociedade”, acrescentou.

De acordo com a Comissão, os líderes religiosos de catorze Estados-membros (França, Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Itália, Países Baixos, Grécia, Roménia, Bulgária, Chipre, Hungria, Eslováquia, Polónia e Dinamarca) expressaram o seu apoio à estratégia Europa 2020 delineada por Bruxelas e aos respectivos objectivos sociais e educativos.

O “fulcro” da Estratégia Europa 2020 – sucessora da Estratégia de Lisboa para o crescimento e emprego – é a promoção do emprego, do crescimento inclusivo e da coesão social, sendo que um dos objectivos acordados na UE é reduzir em pelo menos 20 milhões, até 2020, o número de europeus expostos à pobreza e à exclusão social.

Segundo Bruxelas, os líderes religiosos incentivaram as instituições europeias a reforçarem esta dinâmica, nomeadamente com vista a melhorar o acesso ao mercado de trabalho e a oferecer serviços sociais mais orientados nos Estados-Membros, bem como a garantir a igualdade de oportunidades no acesso à educação e à formação.

Sublinharam também o seu empenho constante em promover a coesão social e reforçar o espírito de solidariedade e de participação cívica entre os europeus, salientando que só será possível superar a crise actual quando as pessoas e a justiça social estiveram no cerne das políticas europeias.

Na sexta edição do encontro inter-religioso – uma iniciativa lançada por Durão Barroso em 2005 -, o presidente da Comissão sublinhou o facto de este ter sido o primeiro realizado sob o Tratado de Lisboa, cujo artigo 17.º prevê que a União mantenha “um diálogo aberto, transparente e regular” com a religião, as igrejas e as comunidades religiosas.

publicado por Re-ligare às 18:55
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